4.8.13

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Beatriz! -
E foi interrompido por um meteoro.
Fatalmente esmagado.

Até hoje, não sei o que ele quis dizer,
mas por via das dúvidas,
tô indo.

11.7.13

Quando a agulha toca as primeiras ranhuras do vinil, é aí que tudo começa.
Ela começa transbordando devagarinho da caixa da vitrola, como água de aquário agitado por um moleque bagunceiro.
Vai caindo devagarinho, em grossos fios. Tomando conta do chão do quarto, espalhando-se, cobrindo todos os objetos lá caídos. Vai se esgueirando porntodos os cantinhos, sulcos do piso. Quando atinge o rodapé, desafia a física, e começa um movimento maravilhoso: escorre para cima. Vai tomando conta de todas as paredes, como um feitiço, uma coisa bonita de não-se-ver.
Quando alcança o teto, não demora até fechar-se por completo. E é quando ela não tem mais por onde ir, que começa a pingar. Pinga no nariz, na cabeça, nos pés e nos braços da gente. Começa a gotejar mais rápido, mais forte.  E naquela, sabe, bem naquela hora da canção... Uma chuva pesada cai sobre nós. e dependendo do que se ouve, do que se sente ao sentir esses respingos, reagimos com choro, ou com grandes sorrisos cheios de paz. Há, ainda, quem queira acompanhar os sons que ouve, pra sentir-se parte da tempestade.
Até que tudo começa a secar. As gotas cessam, a cobertura se encolhe e volta para o disco.
Nos deixa encharcados de emoção.
E querendo tudo de novo.
Quando me perguntam se eu acredito no poder de um banho de chuva, digo sempre que não. Prefiro banho de música.

16.4.13

Após desentendimento:
- eu te odeio.
- por quê?
- porque eu deitei aqui puto. só que quando minha mãe veio me dar um beijo, eu fiquei feliz porque achei que fosse você. vem cá. let's not make a big deal out of it. dá um beijo?
- feito. te dou dois.

E fim.

11.4.13

Casa das Rosas
SP

Entrei.
Com fones de ouvido.
Bolsa, sacolas pesadas.
Cabelo bagunçado.
Cansada.

Coloquei os pés no salão principal,
E a moça da recepção já não usava mais tailleur.
 O segurança da porta era o anfitrião,
E a casa estava em festa.

Os meus cachos desalinhados,
Arrumaram-se em um penteado.
E o peso das sacolas,
Tornou-se peso de um vistoso vestido.

Dancei.
Passos tímidos, pois era uma moça muito recatada,
Mas ainda assim,
A frente de meu tempo.

Fitei o moço de olhos azuis e aparência elegante e sensível do outro lado da multidão.
Fiz-lhe um sinal discreto com a cabeça.
Ele acenou de volta.
Meus lábios abriram-se num sorriso quase involuntário.
Os dele também.
Olhei de novo para o moço. Com o olhar, apontei a escada.
Subi, quase correndo, quase andando.

Na varanda, o esperava.
Ele surgiu
Como um herói que surge bem a tempo.

Beijou-me a mão.
Beijou-me os braços.
Beijou-me os ombros.
Beijou-me as bochechas.
Beijou-me.

Infinitamente,
Tão plenamente,
Tão lindamente,
Apaixonadamente.

Fiquei sem ar!
Estou sem ar!
Mas, ora,
Quem disse que eu queria ar?

Suas mãos esco-

...

Buzinas descontroladas.
Os carros me tiraram de lá.
A realidade, como mãe castradora que é,
Foi me buscar mais cedo.

Saí dali.
Av. Paulista.
Peguei o metrô, fui pra casa.
Com os pés cansados de festa.

8.4.13

Quando criança, anseava por tragédias. Nutria uma curiosidade quase doentia. O que aconteceria se a minha impassível e raivosa avó tivesse que lidar com algo para que não foi preparada? Se o meu, até então, digníssimo genitor, precisasse tomar as rédeas de uma situação - e não conseguisse?
Me fazia quase salivar.
Confesso, torci pela morte do meu avô. Envergonhada, claro. Mas torci.
Ele, no hospital por quase dois meses. Um homem de oitenta e tantos, com sequelas graves de um avc antigo. Eu praticamente podia ouvir o clímax chegando, como se viesse trotando forte. Forte o suficiente para atingir o peito de todos, arrancando-lhes o ar, menos o meu. 
Olhava para os colegas em sala na escola e imaginava grandes invasões violentíssimas, cheias de reféns, tiros, sangue e tragédia.
Olhava para os aviões voando baixo perto dos aeroportos e quase pedia em voz alta pra que caíssem. Que se despedaçassem. Que tudo virasse poeira, estilhaço, notícia.
Fantasiei algumas vezes com uma morte súbita dos meus pais. Avós também. Quem tomaria conta de mim? Como seria minha nova rotina?
Só que eu não estava preparada para o maior problema de todos os tempos. E você veio, me empurrou para o chão e evitou que eu fosse impactada integralmente. Era pra eu ter morrido, mas só quebrei um braço.
Hoje, ainda penso numa coisinha ruim aqui e ali. Mortezinha aqui, acidentezinho ali. Mas nada que me afete. Não mais. Tenho muito mais coisas que gosto do que coisas que não gosto. Agora sim, vale a pena criar rugas de preocupação.
Tudo por você e quem você é. Tudo pela pessoa que eu sou hoje, sozinha. E pela garota que eu sou com você. E pra você.
Um desabafo horrendo, perverso, mas sincero, da sua Bee.
Te amo.

Hoje, ouvi uma menina dizer:
- eu queria um amor que nem o daqueles dois ali.
E apontou para um casal abraçado.
- queria essa coisa de olhar e se apaixonar... Mas eu não consigo! Acho que meu coração secou.
Imaginei o órgão esturricado. Abafei o riso.
Ora, mas que bobagem. Seu coração não tá seco, não, moça. É a sua vida que tá.
Eu só quero sentar. Sentar para ler meus livros. Cheirar cada letrinha, fumar as páginas, tragar as histórias. E, em fumaça, expelir o que não me interessa. 
Não me importo mais com histórias de amor. Muito provavelmente, porque acho a minha a mais bonita de todas. 
Não ligo para grandes dramas. "Os Miseráveis", veja você, já não é mais pra mim.
E também não quero nada conhecido, comentado, que esteja no auge da sua fama. Não quero correr o risco de que alguém olhe para mim e se identifique. Quero algo pra mim, e só. Nada que renda conversas medianas, fóruns de discussão ou grandes adaptações cinematográficas.
Não tô a fim de seguir um padrão. Quero laranja, mesa e sapo. 
Por tudo isso, peguei três livros jogados ao canto das prateleitas. Um romance em prosa, um livro de contos e uma graphic novel de capa minimalista.
Não quero lembrar, por alguns instantes, que sou Beatriz, estudante de radialismo, marcada, cheia de traumas, manias secretas, aversões, com coisas a fazer.
Não quero ser ninguém.
Só quero ler.