8.4.13

Quando criança, anseava por tragédias. Nutria uma curiosidade quase doentia. O que aconteceria se a minha impassível e raivosa avó tivesse que lidar com algo para que não foi preparada? Se o meu, até então, digníssimo genitor, precisasse tomar as rédeas de uma situação - e não conseguisse?
Me fazia quase salivar.
Confesso, torci pela morte do meu avô. Envergonhada, claro. Mas torci.
Ele, no hospital por quase dois meses. Um homem de oitenta e tantos, com sequelas graves de um avc antigo. Eu praticamente podia ouvir o clímax chegando, como se viesse trotando forte. Forte o suficiente para atingir o peito de todos, arrancando-lhes o ar, menos o meu. 
Olhava para os colegas em sala na escola e imaginava grandes invasões violentíssimas, cheias de reféns, tiros, sangue e tragédia.
Olhava para os aviões voando baixo perto dos aeroportos e quase pedia em voz alta pra que caíssem. Que se despedaçassem. Que tudo virasse poeira, estilhaço, notícia.
Fantasiei algumas vezes com uma morte súbita dos meus pais. Avós também. Quem tomaria conta de mim? Como seria minha nova rotina?
Só que eu não estava preparada para o maior problema de todos os tempos. E você veio, me empurrou para o chão e evitou que eu fosse impactada integralmente. Era pra eu ter morrido, mas só quebrei um braço.
Hoje, ainda penso numa coisinha ruim aqui e ali. Mortezinha aqui, acidentezinho ali. Mas nada que me afete. Não mais. Tenho muito mais coisas que gosto do que coisas que não gosto. Agora sim, vale a pena criar rugas de preocupação.
Tudo por você e quem você é. Tudo pela pessoa que eu sou hoje, sozinha. E pela garota que eu sou com você. E pra você.
Um desabafo horrendo, perverso, mas sincero, da sua Bee.
Te amo.

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