Ela começa transbordando devagarinho da caixa da vitrola, como água de aquário agitado por um moleque bagunceiro.
Vai caindo devagarinho, em grossos fios. Tomando conta do chão do quarto, espalhando-se, cobrindo todos os objetos lá caídos. Vai se esgueirando porntodos os cantinhos, sulcos do piso. Quando atinge o rodapé, desafia a física, e começa um movimento maravilhoso: escorre para cima. Vai tomando conta de todas as paredes, como um feitiço, uma coisa bonita de não-se-ver.
Quando alcança o teto, não demora até fechar-se por completo. E é quando ela não tem mais por onde ir, que começa a pingar. Pinga no nariz, na cabeça, nos pés e nos braços da gente. Começa a gotejar mais rápido, mais forte. E naquela, sabe, bem naquela hora da canção... Uma chuva pesada cai sobre nós. e dependendo do que se ouve, do que se sente ao sentir esses respingos, reagimos com choro, ou com grandes sorrisos cheios de paz. Há, ainda, quem queira acompanhar os sons que ouve, pra sentir-se parte da tempestade.
Até que tudo começa a secar. As gotas cessam, a cobertura se encolhe e volta para o disco.
Nos deixa encharcados de emoção.
E querendo tudo de novo.
Quando me perguntam se eu acredito no poder de um banho de chuva, digo sempre que não. Prefiro banho de música.
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